Com o mais profundo sentimento de tristeza nós da ABENFO-SP prestamos nossas condolências a família da nossa querida Nelly Cristina Venite de Souza, Obstetriz no auge de sua vida pessoal e profissional, grande batalhadora pelos direitos das mulheres, brutalmente assassinada, vítima de feminicídio!

Compartilhamos abaixo carta de repúdio escrita pela AO-USP e também assinada por nós.

Velório: Segunda feira às 8:00
Enterro: Segunda feira às 14:00
Local: Velório Municipal Emílio Sophia
Endereço: Avenida Prefeito Newton Reis 230. Jardinópolis/SP



São Paulo, 19 de maio de 2018

Carta de repúdio da Associação de Alunos e Egressos do Curso de Obstetrícia da USP (AO-USP) ao Feminicídio de Nelly Venite: mulher, obstetriz, feminista e ativista pelos direitos das mulheres

Nelly, nós, mulheres, parteiras, obstetrizes, ativistas pelos direitos humanos, estamos em luto. Conhecíamos sua história, sua luta pela humanização da assistência ao parto no Brasil, pelo fim da violência obstétrica e sonhávamos juntas com o ideal de uma sociedade justa e igualitária.

Muitas de nós compartilhávamos também sua luta diária, sobrevivendo nesse mundo cruel de disputa, violências simbólicas, valores líquidos, máscaras. Máscaras que nunca te serviram, porque você, Nelly, você nunca se submeteu.

Um homem tirou sua vida, amiga, porque você era mulher. Tirou a vida de quem muito recebeu vida nesse mundo. Foi violento com quem tanto dava carinho, amparo, entrega sincera. Ver seu nome estampado em uma manchete sangrenta, como fizeram contigo, só nos dilacera. Não admitimos que façam uso da sua imagem para engordar os bolsos das corporações que são cúmplices de tantos feminicídios.

A dor que sentimos hoje pelo crime de feminicídio que interrompeu sua vida também é a dor pela perda de uma companheira, ativista que fortaleceu o ideal de uma profissão que luta pelo fim da desigualdade de gênero e da violência contra as mulheres. É a dor de se saber da perda de alguém que batalhou tanto - e nós, Obstetrizes, sabemos o quanto - para ser o que é.

Nelly, nós estamos resistindo. Você também resistiu. Você lutou por cada mulher que passou pela sua vida. Seu corpo foi violado porque era um corpo político, que diariamente lutava contra o patriarcado e o sistema opressor. Você nunca se calou contra a menor injustiça, tanto resistiu em todos os espaços que ocupou. Nós não vamos silenciar, companheira, porque sabemos que você não silenciou.

Mataram uma de nós. Mais uma. Dois meses depois de Marielle, silenciaram mais uma voz que não se continha em se levantar. Mais uma voz que era a ampliação da voz de tantas mulheres. Mais uma voz que não se furtava a dizer: somos fortes, estamos unidas e não vamos mais deixar nos apagarem.

Eles passarão, Nelly, nós passarinho. Porque esquecem que somos sementes.

Esquecem que cada mulher de quem você cuidou guardou no peito a luta, o olhar amoroso de sua parteira. Esquecem que cada uma encontrou em você, Parteira, uma parceira de vida. Esquecem que se levantam mais 10, 100, milhares de nós a cada uma que é derrubada. Das nossas sementes, crescem raízes fortes. Raízes tão poderosas quanto o vínculo que ligou você, Nelly, a toda mulher que teve o privilégio de ganhar seu cuidado.

O Brasil é o quinto no ranking de homicídio. Segundo o Mapa da Violência de 2015, em 2013 foram registrados 13 homicídios femininos por dia. O feminicídio é a manifestação mais grave da desigualdade de gênero nos espaços públicos e privados. Desde 2015, foi incorporado como forma de lei (13.104/2015) em resultado da luta feminista para a desconstrução da invisibilidade dessa problemática de gênero e impunidade daqueles que cometem esse tipo de violação aos direitos das mulheres.

A violência sistêmica contra as mulheres brasileiras dos mais diversos tipos e instâncias é alarmante em nosso país. Seu assassinato reafirma a necessidade de discutirmos sobre o ódio e a misoginia presentes na sociedade que motivam as violências contra a mulher e o atentado às suas vidas.

Estamos despedaçadas, estamos sangrando, estamos zangadas e não aceitamos o que te fizeram. Você ainda tinha muito o que nos ensinar, rir e lutar. Estamos unidas para sempre, querida companheira, pela luta contra um mal que tirou sua vida. Um mal contra o qual você lutava bravamente. Seguiremos em seu rastro de amor e bravura para derrotá-lo.

Precisamos unir nossas forças e nossas lutas para que mais vidas não sejam mortas em nome da misoginia, das diversas formas de violência de gênero a que somos submetidas.

Nelly, presente.
Marielle, presente.
Nós todas, presentes.

Pelo fim da violência de gênero. Por uma sociedade justa e igualitária. Pelas mulheres.